quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Barco ao mar

Barco ao mar Texto da Monja Coen publicado no jornal O Globo de 28/05/2015 Ele não está perdido no oceano do nascimento, velhice, doença e morte. O voto de fazer o bem a todos os seres nos leva ao porto seguro Estamos a sós e sem SOS. Não há terra à vista. Não há outros barcos. Não há outros seres humanos. Não há água potável. Os alimentos terminaram e já não temos mais força para continuar, pois os remos se foram, a vela se perdeu e o barco não tem motor. O que fazer? Sobreviver. Não são apenas os náufragos, em pequenos botes, atravessando mares e oceanos à procura de uma vida melhor, que morrem nas águas salgadas. Alguns arremessados por seus companheiros, outros caídos de fraqueza. E ainda há aqueles que não são acolhidos em nenhum país, que não recebem permissão de desembarcar em nenhum porto. Existe um porto seguro? Há um local além do bem e do mal? “Não há nada seguro neste mundo”, era o que dizia Buda. Há quem tenha casa, carro, emprego e se sinta como o naufrago sem eira nem beira. Não ouve, não vê, não cheira. Perde o contato com a realidade, vive na fantasia da depressão, da solidão, da angústia, da raiva, da revolta. Vítima de si mesmo, culpa a tudo e a todos. A culpa é do partido político, é do governo, é do povo. A culpa está em toda parte, menos em si mesmo. E todos são julgados e decretados culpados. Apenas o eu menor, cheio de si mesmo, preso ao seu corpo de dor, sente a sua grandeza. “Ninguém sofre como eu sofro.” De certa forma, é verdade. O sofrimento de cada pessoa é único e o maior de todos, pois é o seu. Entretanto, se e quando somos capazes de sair do casulo individualista, podemos abrir as asas devagar e, talvez com certa dor, voar além de nós mesmos. Esse é o ensinamento de Buda, o ensinamento Zen. Além, muito além repousa o Eu Maior. Esse além é bem aqui, neste momento, neste local. No agora. Tranquilo e faceiro, em presença absoluta, aprecia a vidamorte, sem resmungar e reclamar. No barco, perdidos e sós, ainda podemos respirar. A dor nos lábios nos força a torná-los imóveis, calados. A língua grossa se alegra no silêncio das palavras. Vemos o mar e reconhecemos as nuances de azul e verde das águas, dos céus. Tantas possibilidades. O Sutra do Coração da Grande Sabedoria Perfeita se inicia assim: Quando Kannon Bodisatva praticava em profunda Sabedoria Perfeita claramente observou o vazio dos cinco agregados, assim se libertando de todas as tristezas e sofrimentos. O ser iluminado, símbolo da compaixão ilimitada — Kannon Bodisatva — pratica, exerce a sabedoria perfeita. Vê com clareza, observa em profundidade e percebe que não há nada fixo ou permanente. Tudo flui como as águas do mar. Cinco agregados são a forma física, as sensações, percepções, conexões neurais e consciência. Isso constitui um ser humano e este está sempre se transformando, transmutando. Cada momento é único e nosso olhar profundo revela que a tristeza e o sofrimento também não são fixos nem permanentes. Isso é libertação. É capacidade de apreciar a vida em seus múltiplos momentos únicos e diversos. O barco não está perdido no mar do nascimento, velhice, doença e morte. Quando fazemos o voto de fazer o bem a todos os seres, as águas levam o barco tranquilo ao porto seguro do contentamento e da apreciação da existência. Não estamos a sós. Respiração consciente, presença absoluta levam à apreciação do tranquilo cessar das oscilações da mente.

6 comentários:

Antonio Ferro disse...

Belo texto. Devagar a velhice nos leva a essa contemplação. por isso é importante envelhecer com saúde. Nada é pior que um fim de vida atribulado e amargo.

silas paiva disse...

boa noite. principalmente se for por motivo do tabagismo e a gente saber que poderia ser evitado. um desabafo hoje exatamente 76 dias sem cigarro firme sempre grato.

Anônimo disse...

Olá, como vai?

Passando para rever os amigos antigos. espero que esteja bem e feliz¹

Forte abraço,

Viviane Bicalho

Vinho disse...

Amigo Ferro, vejo que você recebeu uma nova parceira nesta jornada, eu estava sumido, realmente o mundo do tabaco não me acompanha mais, saudade das palavras amigas e das nossas conversas e posts. Marília, somente posso te desejar sucesso na sua resolução, parei de fumar porque tinha ficado Pai e me propus a ter a chance de ver meu filho crescer e ter assistência, pois meu pai faleceu de enfisema pulmonar, fumei por 20 anos e estou há 3.191 dias sem este vício maldito, reflito agora, por que demorei tanto para parar, paciência, tudo ao seu tempo. Boa sorte a você. E Ferro grande abraço do amigo Vinho.

Simone Silva disse...

VC desistiu nunca mais escreveu no blog

Simone Silva disse...

Ainda alguém escreve aqui muito bom ler esses textos nos força .